Antes de dar o primeiro celular ao seu filho, faça isso

Seu filho começou a pedir um celular e você não sabe se está na hora?

Talvez a pergunta não devesse ser apenas:

“Qual é a idade certa para dar um celular?”

Mas:

“Como eu vou ensinar meu filho a lidar com tudo o que vem junto com esse celular?”

Porque entregar um smartphone para uma criança ou pré-adolescente não significa simplesmente entregar um aparelho.

Você está colocando nas mãos de um cérebro ainda em desenvolvimento acesso a mensagens, vídeos, grupos, notificações, jogos, aplicativos, desconhecidos e conteúdos disponíveis 24 horas por dia.

E é exatamente por isso que eu não acredito em simplesmente entregar o celular e dizer:

“Agora use com responsabilidade.”

Responsabilidade digital precisa ser ensinada.

Adolescentes con celular Images - Free Download on Magnific (formerly Freepik)

O cérebro do seu filho ainda precisa de você

Durante a infância e a adolescência, as habilidades relacionadas ao planejamento, controle dos impulsos, tomada de decisão, avaliação de consequências e autorregulação continuam se desenvolvendo.

Isso significa que seu filho pode conhecer perfeitamente uma regra e, ainda assim, ter dificuldade para segui-la diante de uma emoção forte, de uma notificação interessante ou da pressão dos amigos.

Ele pode saber que precisa desligar o celular às 20h e pensar:

“Só mais cinco minutos.”

Pode saber que não deveria responder uma mensagem quando está com raiva e responder mesmo assim.

Pode saber que precisa dormir e continuar conversando com os amigos.

Isso não significa necessariamente que ele seja irresponsável.

Significa que saber o que fazer e conseguir fazer aquilo consistentemente são habilidades diferentes.

É por isso que, no começo da vida digital, os pais precisam funcionar como uma espécie de estrutura externa para um sistema de autorregulação que ainda está amadurecendo.

Você estabelece limites agora para que, gradualmente, seu filho desenvolva capacidade de estabelecer os próprios limites no futuro.

Então meu filho precisa ser completamente maduro antes de ganhar um celular?

Não.

E esse é um erro que também precisamos evitar.

Seu filho não precisa ter um quarto impecável todos os dias.

Não precisa nunca discutir.

Não precisa controlar perfeitamente todas as emoções.

Não precisa nunca ficar frustrado.

Não precisa ser perfeito para estar pronto para começar a aprender a usar um celular.

O que precisamos observar é se existe maturidade suficiente para iniciar uma autonomia supervisionada.

Ele consegue compreender regras?

Aceita que haverá supervisão?

Consegue entregar uma tela quando solicitado, ainda que fique frustrado?

Conta para você quando alguma coisa dá errado?

Está desenvolvendo capacidade de respeitar limites?

Então podemos começar a ensinar.

Prontidão digital não é ausência de imaturidade. É capacidade de aprender responsabilidade com supervisão.

O primeiro celular não precisa vir com acesso ao mundo inteiro

Esse talvez seja um dos maiores equívocos das famílias.

Dar um smartphone não significa automaticamente permitir TikTok, Instagram, Snapchat, YouTube Shorts ou qualquer outro aplicativo que a criança queira.

Existe uma enorme diferença entre:

ter um aparelho para comunicação

e

ter acesso irrestrito a plataformas desenhadas para manter o usuário conectado.

A ciência também não nos permite afirmar que as redes sociais sejam suficientemente seguras para crianças e adolescentes, e existem preocupações importantes relacionadas à saúde mental, ao sono e a determinados padrões de uso.

Por isso, liberdade digital precisa acontecer em etapas.

Primeiro, poucos aplicativos.

Depois, conforme seu filho cresce e demonstra responsabilidade, você reavalia.

O celular pode chegar antes das redes sociais.

E, para muitas famílias, deveria.

Uma das primeiras frases que seu filho precisa ouvir é: “O celular é dos pais”

Essa regra precisa existir antes de o aparelho chegar às mãos da criança.

O celular pertence aos pais.

Isso significa que os pais podem estabelecer senha, controles parentais, limites de tempo, aplicativos permitidos e regras de segurança.

E significa também que os pais podem pegar o aparelho quando necessário.

Não como uma ameaça constante.

Não como instrumento de poder.

Mas porque supervisão faz parte da introdução saudável da autonomia digital.

Quanto mais responsabilidade seu filho demonstrar, maior poderá ser sua liberdade.

Essa é a lógica:

MAIS RESPONSABILIDADE = MAIS LIBERDADE.

Não diga apenas “não pode usar muito”. Defina o horário.

Regras vagas geram negociação.

“Não fica muito no celular.”

“Já deu por hoje.”

“Depois você guarda.”

Mas quando é “depois”?

Quanto é “muito”?

Uma criança precisa de previsibilidade.

Todo aplicativo precisa passar pelos pais

Outro combinado precisa estar explícito:

Meu filho não instala aplicativos sem autorização.

Não cria contas escondidas.

Não altera senhas para impedir supervisão.

Não entra em uma nova rede social simplesmente porque “todo mundo da sala tem”.

Se quiser determinado aplicativo, pode conversar.

Pode explicar.

Pode argumentar.

E os pais decidem se aquele aplicativo é adequado para aquela idade e para aquele momento do desenvolvimento.

Isso também ensina uma habilidade importantíssima:

nem todo desejo precisa ser atendido imediatamente.

Os pais também precisam assinar o contrato

Sim.

Porque não deveria existir apenas uma lista dizendo tudo o que o filho precisa fazer.

Os pais também assumem responsabilidades.

Nós nos comprometemos a orientar.

Ouvir.

Explicar.

Proteger.

Reavaliar regras conforme o filho cresce.

E, principalmente, aumentar a autonomia quando ele demonstrar que consegue lidar com ela.

O objetivo final não é ter um adolescente de 17 anos sendo supervisionado como uma criança de 10.

O objetivo é emprestar regulação antes de entregar autonomia.

Pouco a pouco, aquilo que inicialmente era controle externo começa a se transformar em autocontrole.

Eu transformei tudo isso em um contrato para você imprimir

Porque uma coisa é conversar sobre essas regras.

Outra completamente diferente é sentar com seu filho antes de entregar o primeiro celular, preencher os horários juntos, definir os aplicativos permitidos, escolher onde o aparelho vai carregar e ambos assinarem o combinado.

Por isso, criei o Acordo Familiar para o Primeiro Celular, pronto para imprimir e preencher em família.

Imprima.

Sente com seu filho.

Leia cada regra.

Conversem sobre o motivo dela existir.

Preencham juntos.

E assinem.

Porque entregar o primeiro celular não deveria significar simplesmente:

“Agora você tem um celular.”

Deveria significar:

“Agora eu vou começar a ensinar você a usar essa liberdade.”

E talvez esse seja o princípio mais importante de toda educação digital:

MAIS RESPONSABILIDADE = MAIS LIBERDADE.

Não estamos criando filhos para dependerem do nosso controle para sempre.

Estamos oferecendo limites enquanto eles ainda precisam deles para que, no futuro, sejam capazes de estabelecer seus próprios limites.

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Michelle Bottrel

Michelle Viegas Bottrel Neurocientista

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